Oscar 2020: “Violência, violência, quem quer violência?”
Soraia Veloso Cintra
Na década de 1990, assistíamos na televisão brasileira os
episódios da Família Dinossauro. Um dos destaques era o pequeno Baby da Silva
Sauro, um dinossauro cor-de-rosa cujo bordão “Não é a mamãe” marcou época. Mas
ele falava outro também, principalmente, quando assistia a filmes impróprios
para sua idade “Violência, violência, eu quero violência”!!!, soltando uma
gostava risada, mérito da dubladora Marisa Leal. Esta frase de Baby veio ao meu
pensamento depois de assistir Bacurau
e Era uma Vez em... Hollywood. Ambos
os filmes, tão diferentes entre si, apresentam uma questão igual: a violência
entranhada na sociedade e o que fazemos com ela. São formas diferentes de ver a
violência, mas na minha linha de pensamento por ter assistido aos filmes tão
próximos eles se aproximam quando o assunto é fazer justiça com as próprias
mãos.
Bacurau é um filme nacional de 2019 que assisti sem grandes
informações prévias. Sabia pouca coisa sobre ele: contava com Sônia Braga no
elenco e Silvério Pereira; havia ganhado um prêmio em Cannes; não foi a escolha
brasileira para inscrição ao Oscar por um voto. Sempre gostei de filmes nacionais,
mas confesso que estava quase desistindo do filme quando a reviravolta de um grande
roteiro começou a acontecer. Na sala, inclusive, estávamos em apenas duas
pessoas, e de repente nos transformamos em quatro. O roteirista conseguiu nos
prender porque afinal queríamos entender o que tudo aquilo significava.
Violência se pagando com violência e uma cidade [que havia sumido do mapa]
unida pelo bem comum. Marcas de sangue deixadas como troféu e metáforas claras que
precisam ser discutidas (mensagem para os políticos). Foi como se tivesse
levado um soco no estômago. Bem dado e bem recebido. O ator Thomaz Aquino que
vive o Pacote merece atenção maior do que teve na mídia. Seu personagem cresce
ao longo do filme e é justamente quem busca a solução para o imenso problema da
cidade. Lunga, papel de Silvério, organiza a solução, mas acredito que Pacote
teve papel relevante, assim como Wilson Rabelo, que vive o velho Plínio. [Quando
for a Bacurau visite o museu]. Sônia Braga dá charme ao filme, assim como os atores estrangeiros. Não é uma filme fácil, porque tenho a impressão que Bacurau é de fato a resistência que buscamos.
+No dia seguinte assisti Era uma vez em... Hollywood. Da mesma forma que Bacurau sabia só o essencial: era um filme de Quentin Tarantino; era uma homenagem ao cinema; Brad Pitt havia faturado todos os prêmios de ator coadjuvante; tinha como pano de fundo o assassinato de Sharon Tate (e seus amigos). Assisti com interesse, pois queria saber como Tarantino trabalharia a história de Sharon Tate. Mas o que Quentin apresenta, me levou do riso às lágrimas. Afinal, um filme chamado Era uma vez... pode nos apresentar de tudo mesmo, inclusive um Leonardo di Caprio em uma interpretação maravilhosa: um ator em crise existencial, fumante inveterado, tipo ‘canastrão’, etc... Acho que foi injustiçado nos outros prêmios. Torço por ele na festa do Oscar, apesar de saber que desbancar Joaquim Phoenix e seu Coringa, não será tarefa fácil. A justiça com as próprias mãos está ali escancarada e sua realização mudou os rumos da história. E é neste momento que ficamos encrencados enquanto sociedade, pois não estamos trabalhando pela cultura da paz. Estamos mais para ‘olho por olho, dente por dente’. Impossível não refletir sobre a mudança. E se...? É o que sempre nos perguntamos...
Os dois filmes mostram a justiça pelas próprias mãos de
formas diferentes, e ao mesmo tempo tão iguais. Quando os mocinhos se
tornam justiceiros - seja para proteger os cidadãos de bem de uma cidade, seja
para alterar a história - como devemos nos posicionar? Não é uma tarefa fácil. Mas precisamos pensar e falar sobre a violência, porque ela está aí bem na nossa frente e nem sempre queremos enfrentá-la.
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